Rio Grande do Sul

CELEBRAÇÃO

25 anos do Assentamento Filhos de Sepé de Viamão

No último sábado (9), pioneiros do assentamento se reuniram na sede da associação cultural para comemorar a data

Brasil de Fato | Viamão |
"Celebramos o alimento: logramos alimentar milhares! Ousamos alimentar milhões como MST! Mas a fome a ser combatida não é apenas a de comida" - Divulgação

“Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores,há os que lutam muitos anos e são muito bons.Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis”.

Bertold Brecht

(10/12/1998 – 10/12/2023)

A história da luta do povo é feita por homens e mulheres que acreditam em seus sonhos e decidem sonhar junto com outras dezenas, centenas, até mesmo milhares de homens e mulheres. Lutar pela terra! Ocupar, resistir e produzir alimentos, este o nosso lema e a nossa bandeira! Conquistamos um Território livre de agrotóxicos e transgênicos. Mas o que significa um território livre? O que significa comida sem veneno? O que quer dizer essa terra tem dono?

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Neste pedaço de chão – aqui em Viamão – chegamos em dezembro de 1998! Terra a perder de vista. Água a perder de vista. Vínhamos da beira das estradas do interior do RS. Vínhamos de mais de dois anos morando embaixo das lonas pretas e sobrevivendo com a solidariedade das comunidades e dos movimentos sociais.

Chegamos nesta terra surpreendente, mas não foi de graça a conquista. Lutamos por ela. Marchamos por ela; enfrentamos as cercas e os fuzis; rompemos madrugadas erguendo cidades de lona preta em uma noite; nos organizamos pra resolver nossos problemas, da ciranda à saúde; da lenha à segurança. Aprendemos a repetir uns aos outros, umas às outras: ninguém larga a mão de ninguém. Uma pessoa sem terra é apenas um despossuído! Um sem terra empunhando a foice sob o manto da bandeira vermelha é uma ameaça ao sistema. Mas sem terras organizados, produzindo alimentos sem veneno é revolucionário!

E já estabelecidos e começando a reconstruir nossas vidas, homens e mulheres ousaram plantar uma semente. Pensaram eles que era arroz... Pensaram eles que era só arroz! Mal sabiam esses pioneiros e pioneiras o ato desobediente que cometiam. Insultaram de forma mais profunda o capital! Como assim produzir alimentos sem depender do sistema? Como assim produzir arroz sem veneno? Loucura, não vai dar certo, adversários e incrédulos pensaram... Mal sabiam o que o futuro lhes aprontava. Primeiro essa gente reparte a terra e, como se não bastasse essa heresia, decidem produzir sem depender das multinacionais. Como assim não vão comprar veneno? E depois não vão comprar remédio? Isso é um insulto.

Achavam eles que era arroz... Acharam eles que era só arroz!

Rompemos as cercas do latifúndio. Lembram do momento da ocupação? Lembram das foices tilintando contra os alambrados? Lembram das noites de guarda e o frio congelante? Essa terra nos pertence. Essa terra nos merece! ESSA TERRA TEM DONO! Cercas, cercas e cercas! Muitas nos cercam!

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E ainda assim, rompemos a cerca do latifúndio. Mas é preciso igualmente romper as cercas da ignorância! É preciso romper as cercas do capital. Por isso a luta não para. Muito há por fazer. Muito há por lutar. É o que sempre repetimos: a luta continua, a luta é necessária!

A semente foi plantada: olhem a sua volta! Sintam! Ouçam! Cheirem! Toquem! As conquistas da luta do povo emanam por toda parte. E não! Não falamos das estruturas, dos prédios, dos veículos, das indústrias, das casas! Claro, temos aí a base material e econômica. O que celebramos hoje é muito mais!


"Celebramos as crianças correndo, brincando, festejando. Celebramos nossos jovens que assumem o comando... Celebramos as nossas escolas" / Divulgação

Celebramos vocês: nossos amigos e amigas de luta da vida toda: nossos professores, nossas professoras, nossos técnicos, nossos teóricos, padres, pastoras, pastores, lideranças de terreiro, políticos, lideranças dos movimentos parceiros e cooperativas, enfim, nossos aliados, amigos e amigas, muita gente SIM, que a luta uniu, que a luta aproximou. Nosso respeito, nosso carinho! Nossa gratidão! E claro o convite para conosco continuarem lutando.

Celebramos o alimento: logramos alimentar milhares! Ousamos alimentar milhões como MST! Mas a fome a ser combatida não é apenas a de comida. Junto com o arroz orgânico saudável, todo colorido nas suas diversas espécies, com frutas e verduras, ovos caipiras e água clara, a mensagem vai junto! Organizar-se para lutar. Não são os governos que libertam os povos. É a sua luta! A luta do povo!

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Celebramos a natureza: da exuberância, da diversidade, da quantidade. Aqui só tinha grama e cupinzeiros. Aos poucos a harmonia se constrói, não sem conflitos e tensões que existe em todo lugar. E foi nascendo um jardim de plantas, ruas e flores no meio do campo antes árido e entregue ao inço.

No meio e nos diversos setores em que a vasta área de 9.470 hectares foi dividida, as agrovilas com casas coloridas, cercadas de fruteiras e semeaduras foi despontando. E lá embaixo na várzea a vasta Área de Proteção Ambiental (APA) e a imensa barragem com muita água que nós nos comprometemos a PRESERVAR!

Celebramos as crianças correndo, brincando, festejando. Celebramos nossos jovens que assumem o comando... Celebramos as nossas escolas. O nosso Instituto de Educação Josué de Castro que se firma no cenário nacional e internacional! A luta dos povos não tem fronteiras. Felizes, onde estiverem seguidores e seguidoras do mestre Josué de Castro, vocês que praticam seus ensinamentos para combater a fome do povo e trabalhar para a libertação de todas as amarras.


"Celebramos o nosso grande movimento: o MST! Grande pelo objetivo, pela prática, pela solidariedade exercida" / Divulgação

Celebramos o nosso grande movimento: o MST! Grande pelo objetivo, pela prática, pela solidariedade exercida, que traz o esperançar no cotidiano de homens e mulheres que por todo o Brasil lutam pra democratizar o acesso à terra, ao conhecimento, à arte e à cultura. MST rumo aos 40 anos!

Celebramos a vida! A luta que nos uniu neste momento permite o compartilhar! Esperancemos muitas conquistas. Mas como sempre... Fiquemos vigilantes frente aos inimigos que nos rondam. Vencemos uma batalha. A guerra contra a fome e a desigualdade, porém, está longe de acabar. Viva os 25 anos do Assentamento Filhos de Sepé! Viva a Agroecologia! Viva a Reforma Agrária Popular! Viva o MST!

* Agricultor agroecológico, diretor da Cooperativa dos Produtores Orgânicos da Reforma Agrária de Viamão – COPERAV, pós-graduando em Agroecologia pelo IFRS/Viamão.

** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato. 


Edição: Katia Marko