Coluna

Memória militante, 28 de agosto de 1978 

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Soldados colocaram cravos na ponta dos seus fuzis, durante o levante; a flor, que simbolizava a resistência pacífica, acabou dando nome à revolução - Wikicommons
Sou um híbrido, português demais para brasileiros, talvez, brasileiro demais para os portugueses

Entre dois pontos se traça uma linha reta.

 

Para traçar uma curva são necessários pelo menos três.

 

Os caminhos da política são muito complexos e curvilíneos.

 

                                                                                                                      Leon Trotsky



 

Foi no dia 28 de agosto de 1978 que desembarquei no Rio de Janeiro vindo de Lisboa. Quarenta e cinco anos atrás, um aniversário “grande” que faz pensar. Tinha 21 anos. Em um certo sentido, há datas que são uma referência tão poderosa em nossas vidas que podemos dizer que nascemos outra vez. Eu nasci uma segunda vez no 25 de Abril de 1974. Sou um filho da revolução portuguesa. Mas, ainda uma terceira vez, no 28 de agosto de 1978. Sou o que as lutas populares no Brasil dos anos oitenta fizeram de mim.

Cheguei ao que poderíamos chamar de vida “consciente” na primeira metade dos anos 70: meia dúzia de anos depois de 1968, mas antes da ascensão de Reagan e Thatcher; depois dos Beatles, mas antes dos punks; depois das calças bocas de sino e antes dos paletós com ombreiras gigantes; em tempo de ver Pelé brilhar na Copa do México de 1970 e antes de Maradona; quinze anos depois da pílula e dez anos antes da epidemia da Aids. Se tivesse ficado no Brasil, teria Médici pela frente, mas estava em Portugal: o 25 de abril despertou a primavera dos meus dezessete anos. Em resumo: tudo considerado, tive sorte.

Voltar ao Brasil foi, possivelmente, a decisão que teve mais consequências para o meu destino. Não foi a mais difícil, mas a mais decisiva. Estava fora do Brasil desde 1966. A força de inércia das rotinas da vida é imensa, e quase sempre temos uma percepção subestimada. Se tivesse permanecido em Lisboa, teria me transformado em uma pessoa muito diferente de quem sou hoje. 

Diz a sabedoria popular que a cabeça acompanha o chão que os pés pisam. Parece um determinismo rude, tosco, tacanho. Não é. A história conta. Somos filhos de nossos pais, mas também de um tempo. O tempo não escolhemos. Mas podemos escolher o lugar. E o lugar faz muita diferença. As pressões sociais reacionárias são muito poderosas, e ninguém é imune. 

O gatilho da decisão foi que meu pai enviou uma passagem de ida e volta. Não nos víamos desde 1967, e a saudade era grande. Mas assim que recebi as passagens compreendi que estava diante de um desafio. Deveria voltar?  

Voltei sozinho ao país em que nasci por uma escolha consciente. Sabia que era uma decisão chave. Muito jovem me uni à causa do socialismo. Mas ter engajamento militante no Brasil era uma localização muito diferente do que permanecer na Europa. Os riscos eram maiores, mas as possibilidades eram, também, muito maiores.

No verão do hemisfério norte de 1978 já era claro para mim que o impulso revolucionário de 1974/75 tinha se perdido. A situação revolucionária estava esgotada. Admitir a derrota não era, emocionalmente, fácil, em função do engajamento apaixonado dos primeiros anos de militância, porem inescapável.

Queria participar de uma das “esquinas perigosas” da história do Brasil que percebia estava amadurecendo: a fase final da luta contra a ditadura. Já era um militante da Quarta Internacional. A imensa maioria dos trotskistas da minha geração aprenderam que a luta pela revolução socialista era possível lendo livros sobre a revolução de outubro, e as que vieram depois. Eu tinha aprendido vivendo a revolução nos meses intensos do “verão quente” de 1975 em Lisboa.

Eu sabia que a ditadura seria derrotada. Não sabia quando, nem como. Mas sabia que era possível a abertura de uma situação revolucionária, em prazos breves, quando chegaram as informações sobre as primeiras greves no ABC paulista. Afinal, foram ainda necessários cinco anos e meio para os comícios das Diretas Já, a partir de janeiro de 1984.

Mas deu tempo de estar presente na greve dos metalúrgicos de Osasco no final de 1978, no Congresso de reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980, da CUT em agosto de 1983.  

Tinha que considerar muitos fatores. O primeiro era o compromisso com minha mãe, que já não morava em Portugal, porque transferida pelo Itamaraty para Barcelona, de terminar o curso na Universidade de Lisboa. Temia decepcioná-la. O segundo era a necessidade de renovar, legalmente, o direito de residência diante de uma nova lei de estrangeiros que tinha como critério a permanência ininterrupta no país por cinco anos ininterruptos. Tinha vivido em Portugal entre 1966 e 1974, mas ido para França com a aprovação no baccalauréat, o exame de acesso, e a matrícula na Universidade de Paris, em Nanterre. Teria que abrir um processo na justiça. Já tinha mudado de curso duas vezes: deixei a sociologia pelo direito, e depois fui para a história. Mas o mais importante era a decisão de deixar a Europa e voltar ao Brasil. Minha mãe só voltou em 1989. Meu irmão mais novo em 2008.

Nem meus pais, nem os pais deles frequentaram faculdades. Sou o único de minha família que completou uma educação superior. Nasci em uma família de classe média. Bisneto de um oficial do exército maranhense e de um agricultor italiano, neto de dois comerciantes, um catarinense e o outro mineiro, sou Montarroyos, e Arcary, mas levo comigo o nome de meu pai. Filho de pai e mãe, culturalmente, cariocas, fui educado desde os nove anos em Lisboa em um ambiente semi-afrancesado nos valores, portanto, afetado, e semi-anglófilo nos costumes, portanto, pomposo. Sei que não escapei incólume. Sou um híbrido, português demais para brasileiros, talvez, brasileiro demais para os portugueses.

 

    Sim, um pouquinho complicado.

 

     A vida, como a luta de classes, não é uma linha reta.

 

     Somos nós que temos que nos posicionar diante do perigo das curvas.

Edição: Rodrigo Durão Coelho