Paraíba

Coluna

A poesia da memória: a mãe que canta

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Foto de família - Arquivo pessoal da autora
Minha mãe musicava as letras em vozes empolgantes de cantorias em tom altivo

Tania Aparecida Lopes*

Há algum tempo, dialogando com a amiga Geny, ela, das linguagens, por lapso de incompreensões acreditei que a poesia era uma forma de expressão que eu mesma imaginava não ter ainda me aproximado como gostaria. Pensava que era uma dificuldade de me permitir absorver e ser absorvida pela subjetividade da poesia de forma profunda e extraordinária. Me convenci de que o conteúdo da literatura poética, aprendida na escola, na década de 1970, na minha adolescência, em plena ditadura civil militar, não dialogavam com as nossas vidas...de pretas/os, pobres. Mas, ali, com Geny, de repente, o mar se abriu e eu apreendi que a música era as minhas memórias mais constantes e apaixonantes, na verdade, era poesia pura que sempre me encantou. 

O Cantar, as músicas sempre fizeram parte da rotina familiar, aguçavam minha reflexão e um diálogo profundo com minhas singularidades, meu caminhar, minha família, meu social. Eram cenas de um barraco, não de “zinco”, onde, eu na verdade morava. Aos domingos via a mãe negra, de cabelo crespo preso, de vestido de tecido barato preparando o almoço ao redor de meus dois irmãos, mais tias e tios em volta de um canto do barraco, que quase sempre alagava, que chamaremos de “cozinha com fogão de gás”.  

Neste canto, com vozes ecoando e dançando ao som de um rádio velho e verde, mesmo com enredos tristes, os ritmos cantados com empolgação, das tias e tios mais velhos, bailavam-se em momentos alegres de contentamento e euforia que eu não queria mais sair. Aquela sensação fixada pelas músicas cantadas no cozimento do alimento e da mente fortalece ainda hoje minha ligação com as e os mais velhos e ressignificam minha relação com a minha ancestralidade. No domingo, a família reunida. Na segunda, a mãe domesticada, cozinhava, cuidava da casa-grande com piscina e dos filhos que não eram nossos, onde acreditava ser bem tratada, inclusive nas noites de natal que ela estava longe de nós.


Foto de família (1) / Arquivo pessoal da autora 

Para mim, no meu olhar, minha mãe musicava as letras em vozes empolgantes de cantorias em tom altivo como se as cantorias fossem um escape e uma tomada de consciência de sua realidade por ser uma mulher, negra, nordestina, mãe solo, não alfabetizada, doméstica, com filha e filhos pequenos confiantes e dependentes dos seus cuidados. A alegria e felicidade, de forma guerreira, sempre em alerta, pisando nesse chão devagarzinho, com receio e desconfianças, mas firme. Quase sempre, as músicas mais cantadas traduziam as dores e esperanças de um viver melhor.


Fotos de família (2) / Arquivo pessoal da autora

A música, cantada com alguns erros nas letras, a deixava, por um momento feliz, e nós também, saltitantes, mexendo pernas e braços, imitando puxadores de enredos, passistas e mestres-salas de escolas de samba... Com a poesia dos cantos em meio a letras que falavam de amor e de realidade social, ela se tocava de sua vida, e da dor de morar num barraco, numa cidade fria, onde ratos devoravam o alimento de suas crias sem metáfora. Com a poesia da música ela devaneava com a esperança de ver o seu “o príncipe encantado” retornar e retirar do seu peito a tristeza da solidão da mulher negra. 

Agora, eu no grupo das mais velhas, dos mais velhos, a poesia pulsa dentro de mim como correnteza forte. Com a poesia da música, dialogo com meus/seus versos que convergem e divergem com e sobre as minhas percepções cotidianas e as minhas experiências vividas, como mulher e negra.  

Toda esta poesia e a melodia da música junta a outras, eu, danço, comemoro, e firmo na certeza de que algumas avançam e subvertem as amarras de opressão, sabedoras e donas do seu corpo na sua existência... 

Com as memórias das poesias apreendidas, reflito, não sozinha, mas em rede olhando para trás, pro lado e para frente, sobre as dores do abandono de afeto  pela pretitude e por ser mulher, cis  ou trans.

Assim, me (nos) tirando do devaneio, denunciando as desigualdades e experiências incertas de vida, sigo, porque estas realidades, quase sempre são muitas, de vez em quando constantes, infelizmente, no viver das mulheres negras de ontem, de hoje...Sigamos os momentos, possíveis, com cantorias. 

Obrigada, mãe.

*Tania Aparecida Lopes, mulher negra, mãe, doutora em Educação pelo Programa de Pós Graduação em Educação, da Universidade Federal do Paraná, na linha de pesquisa Educação: Diversidade, Diferença e Desigualdade Social; coordenadora do IPAD Brasil – Instituto de Pesquisa da Afrodescendência; Grupos Dialogando Com e Movimenta Feminista Negra; professora (aposentada) da disciplina de História, da rede de educação básica do Estado do Paraná. Email: [email protected]. A produção é relação de parceria com a Comunidade Colaborativa de Mulheres Afro-Ameríndia COCAM/RECOSEC/UFPB. Instagram: @recosec.ufpb

Edição: Polyanna Gomes