Paraíba

Coluna

Olope (movimento/ação): memórias paraibanas em torno do Dia Internacional das Mulheres Negras

Card - Dia Internacional das Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, 2022  - Card: Reprodução
continuamos a reinventar nossas utopias por um Brasil “sem racismo e violência e pelo bem viver"

Por Rayssa A. Carvalho*

 

No ano de 1992, no I Encontro das Mulheres Afro-Latino-Americana e Caribenha, realizado em Santo Domingos na República Dominicana, foi instituído o dia 25 de julho como Dia das Mulheres Negras na América Latina e no Caribe. Esta data se constituiu relevante na demarcação da afirmação política e a visibilidade da luta e resistência das mulheres negras no continente. Na mesma década, o “25 de julho” foi incorporado pela agenda política do Movimento de Mulheres Negras no Brasil e, após três décadas, no Brasil, são muitas as ações políticas, dos movimentos sociais aos setores privado e público que reconhecem as demandas sociais desse sujeito de direito, assim como celebra-se a ancestralidade africana feminina e são profícuos os debates acerca das injustiças sociais. 

Na Paraíba, as comemorações do 25 de Julho: Dia das Mulheres Negras da América Latina e do Caribe marcaram a agenda da Bamidelê, desde a sua fundação até o encerramento de suas atividades políticas (dezembro de 2021), como importante estratégia de visibilização da atuação política das mulheres negras no estado. As primeiras celebrações foram realizadas pelo Grupo de Mulheres Negras na Paraíba, entre os anos de 1998 a 2000, ocorriam na residência de uma das integrantes, de maneira mais celebrativa, revigorando a identidade negra e de gênero, assim como o fortalecimento dos afro-afetos e planejamento político para ampliar a luta afro-feminista.  

Após a institucionalização da Bamidelê-OMN/PB, em 2001, a celebração ganhou maior proporção e projeção política em todo o estado, sendo pauta prioritária da organização, a cada edição as comemorações foram organizadas em eventos como, seminários, mesas redondas, encontros, que contavam com a participação dos movimentos sociais negros e feministas do estado. 

Entre as 23 edições de celebração do Dia 25 de Julho na Paraíba, e as 20 edições realizadas pela Bamidelê-OMN/PB, destacam-se as que foram marcos importantes para a atuação política das mulheres negras no estado, visibilizando e fortalecendo o movimento:

2005 - Na 7ª edição a comemoração do 25 de Julho – Dia das Mulheres Negras foi pela primeira vez às ruas, em Mobilização no Parque Sólon de Lucena, na cidade de João Pessoa-PB, num grande evento público que contou com a parceria do Movimento Negro e das mulheres da Comunidade Quilombola de Caiana dos Crioulos e outros grupos culturais de adolescentes, jovens e mulheres negras.

2009 – Na 11ª edição houve o lançamento da Campanha de Afirmação da Identidade Negra na Paraíba: [email protected] não, Eu sou [email protected]!, como evento realizado no Teatro Paulo Pontes, em João Pessoa-PB, com a participação dos movimentos sociais e da sociedade em geral. A cantora negra Cátia de França fez o show de lançamento e o cantor Chico César participou das peças publicitárias veiculadas na mídia em geral.

2011 – A 13ª edição marcou os dez anos de fundação da Bamidelê, sendo realizada a Exposição: “Visões Negras – simbologias, histórias e trajetórias”, no centro da capital, no Casarão 34, em João Pessoa-PB. Além do Seminário “Luta antirracista e antissexista na Paraíba: realizações, avanços e perspectivas”, que contou com representante do poder público (Secretaria de Políticas para as Mulheres de João Pessoa/PB), da AMNB – Articulação de Mulheres Negras Brasileiras e da ONU Mulheres. Também houve show comemorativo com a participação das Cirandeiras de Caiana dos Crioulos, o Coral Voz Ativa e o Grupo Batuque de Saia, no Solar do Conselheiro, na capital.

2014/2015 – Nas edições 16 e 17, as ações políticas em torno do 25 de Julho ampliaram-se regionalmente, ganhando novos contornos com a criação da Rede de Mulheres Negras do Nordeste, em 2013, e a ampliação do “Julho das Pretas”, idealizado pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, Salvador/BA, e assumido pelas organizações que compunham a rede de mulheres negras, sobretudo, do Nordeste. As ações políticas dos anos de 2014 e 2015 foram realizadas em torno dos eventos preparatórios para a 1ª Marcha Nacional das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver. Assim, a 16ª edição foi realizada pela Bamidelê dentro do processo de mobilização da marcha na Paraíba, em evento no Parque da Lagoa, com apresentações político-culturais voluntárias de artistas negras da cena cultural de João Pessoa-PB. No ano de 2014 ainda foi instituído nacionalmente o dia 25 de Julho como Dia Nacional de Teresa de Benguela e da Mulher Negra (Lei nº 12.987), sendo unida às atividades paraibanas. 

2016/2021 – No contexto do pós-Marcha/2015, com o surgimento do Abayomi – Coletiva de Mulheres Negras na Paraíba, em 2016 (https://www.abayomipb.com.br)  e a ampliação da agregação das mulheres negras em se tratando de nível local e regional, e fortalecimento nacional com Articulação de Mulheres Negras Brasileiras/AMNB, houve um processo de concretização e fortalecimento do Movimento de Mulheres Negras na Paraíba, na qual as agendas políticas em torno do “25 de julho”, “Julho das Pretas” e Dia Nacional de Tereza de Benguela, concretizaram uma agenda afro-feminista com realizações de ações políticas durante todo o mês, com uma agenda local ampliada e alinhada com as ações da Rede de Mulheres Negras do Nordeste, AMNB e outros movimentos sociais e, em alguns casos, em parceria com o poder público.

Ainda no contexto de preparação para a Marcha das Mulheres Negras Brasileiras, em 2015, a atuação política das mulheres negras na Paraíba foi intensificada com a realização do I Encontro Estadual das Mulheres Negras na Paraíba, na programação da 17ª edição do 25 de Julho, tendo como norteador a “Carta das Mulheres Negras - 2015”/AMNB (https://amnb.org.br/marcha-das-mulheres-negras/), um documento político que nos instiga a prosseguir na resistência por: “direito à vida e à liberdade, promoção da igualdade racial, direito ao trabalho, ao emprego e à proteção das trabalhadoras negras em todas as atividades, direito à terra, território e moradia/direito à cidade, justiça ambiental, defesa dos bens comuns e não mercantilização da vida, direito à seguridade social (saúde, assistência social e previdência social), direito à educação, direito à justiça, direito à cultura, informação e à comunicação e segurança pública”.

Enfim, mantém e estimula a resiliência do feminino negro, mesmo em contexto atual (2022), no qual o capitalismo neoliberal está cada mais fortalecido, as estruturas patriarcais mantêm-se fortalecidas com sustentação de uma administração federal (2019-2022) pautada pelas ações de grupos moralizantes e reacionários que têm desmontado as políticas públicas de reconhecimento da diversidade brasileira e das pautas feministas mantendo e aprofundando desigualdades econômicas, raciais e de gênero.

Entretanto, nós, mulheres negras, continuamos a reinventar nossas utopias por um Brasil “sem racismo e violência e pelo bem viver”, afinal, somos mais de 25% da população brasileira, quase 50 milhões (2009) e a jornada de luta continua. Afinal, “nossos passos vêm de longe” e nós atualizamos a resistência em sistema de capitalismo neoliberal e de extremas iniquidades sociais (classe, raça, gênero, etc.) e contra todas as formas de opressões. Por isso mesmo, em 2022, a agenda afro-feminista na Paraíba no mês das mulheres negras está consolidada e são inúmeras as ações políticas efetivadas pelo território paraibano, tendo como protagonista o Movimento de Mulheres Negras na Paraíba, na sua 24ª Edição do 25 de julho, na 10ª Edição do Julho das Pretas e celebrando Tereza de Benguela, com o tema político “Mulheres Negras no Poder, construindo o Bem Viver”.

Saiba Mais

CARVALHO, Rayssa A.; ROCHA, Solange P. protagonismo de mulheres negras: ações políticas da Bamidelê organização de feministas negras na Paraíba. In: GARCIA, Maria de Fátima; SILVA, José Antonio Novaes (Orgs.). Africanidades, afrobrasilidades e processo (des)colonizador: contribuições à implementação da lei 10.639/03. João Pessoa: Editora da UFPB, 2018, p.237-274. Disponível no seguinte link: http://www.editora.ufpb.br/sistema/press5/index.php/UFPB/catalog/book/69 

FONSECA, Ivonildes da Silva; SILVA, Terlúcia Maria da (Organizadoras). Ayeye Ijá: celebrando a luta: Bamidelê: Organização de Mulheres Negras na Paraíba: 20 anos de atuação política. João Pessoa: Livre Editora, 2021. Disponível no seguinte link:

XAVIER, Giovana; FARIAS, Juliana; GOMES, Flávio (Orgs.). Mulheres Negras no Brasil escravista e do pós-emancipação. São Paulo: Selo Negro, 2012.

 

*Historiadora, advogada e pesquisadora da história das mulheres negras brasileiras


 

Edição: Cida Alves