Paraíba

Coluna

SARAVÁ!

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Exigimos reparação e demarcação, já!

Por Antônio Pedro Casqueiro, Eduardo Araújo e Victor de Oliveira Martins*

 

Qual o papel da universidade nos combates aos racismos em tempos/espaços de negação do(s) saber(es) e dos seres? Abrir caminhos ...

Durante o mês de novembro, especificamente o dia 20 de novembro, celebra-se o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra - Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011. Zumbi e Dandara são reconhecidos por liderarem uma das maiores resistências antiescravista das Américas, o Quilombo de Palmares. Não apenas Palmares, mas também Caldeirões, Pau de Colher, Conceição das Crioulas (SILVA, 2016) e outros quilombos, representam a histórica resistência do povo e da cultura africana deste lado de cá do Atlântico.  

Além da luta por autonomia política, cultural, econômica e social, toda mobilização – coalização negra por direitos é pedagógica, pois sua existência produz sentidos de ser e estar no mundo, assim como disputam narrativas contrárias à hegemonia eurocêntrica, branca e capitalista. Nessas pelejas, as insurgências quilombolas femininas se materializam nas batalhas que negritam o corpo-território, ampliam as relações de gênero e denunciam o patriarcado. As mulheres negras quilombolas são imprescindíveis nas guerras antirracistas, na gestão territorial, na preservação da memória coletiva ancestral e nas ações/reflexões políticas e poéticas dentro e fora dos quilombos (DEALDINA, 2020). 

E a universidade com isso? O que podemos fazer? Preparar um ebó epistêmico?  Aquilombar com o Quilombismo de Abdias Nascimento (2002)?  


Capa do livro organizado por Selma Dealdina. / Editora Jandaíra – Selo Sueli Carneiro

Diante do atual desprestígio do ensino superior público no Brasil, das emergências cotidianas de casos de racismo(s) e da ampliação das formas de enfrentamentos contra as colonialidades resolvemos “prestar contas à sociedade” das ações/reflexões produzidas por nós entre os anos de 2019 – 2021, estas, consistem em apostas metodológicas, pedagógicas e epistêmicas, parte de heranças políticas e ancestrais afrodiaspóricas no Brasil (FLOR DO NASCIMENTO, 2020) e de respeitosa escuta dos povos originários. 

No ano de 2019 destacamos: “Zumbi, Dandara e a luta do quilombo do Rio dos Macacos (BA) - Documentário Quilombo do Rio do Macacos"; "Machado de Xangô - Sistema de Justiça, História e Ancestralidade”; Um Toré de provocações indisciplinadas - "Afro-indigenismo – Viva a Jurema!”; e a "Viagem descolonial ao território potiguara", esta última, parte da semana acadêmica do Departamento de Ciências Jurídicas (DCJ – Santa Rita) articulada pelo Centro Acadêmico Manoel Mattos.  

No ano de 2020, com a crise mundial instaurada pela pandemia (COVID-19), a peça teatro “O Racismo matou meu filho”, programada para acontecer em 20 de março de 2020, foi cancelada, a apresentação (extensão e ensino) pensada, produzida e ensaiada na matéria Direitos dos Grupos Socialmente Vulneráveis ficou para outra oportunidade.  

Com a suspensão dos encontros presenciais, o Projeto Baobá Ymyrapytã -"Ensino, Pesquisa e Extensão" foi para as virtualidades, realizando um curso livre sobre o pensamento de Frantz Fanon e os racismos em tempos disruptivos pandêmicos, bem como, uma série de seis “lives” - disponíveis no Canal Baobá Ymyrapytã (2020) – das quais destacam-se: As Ìyálóòdes em mobilizações por direitos humanos e Masculinidades, branquitude e privilégios de classe. Ainda em 2020, foi aprovado o Projeto de Iniciação Científica Voluntária: Racismos, Violências e Mapeamento dos Casos de Covid – 19 nos Quilombos de Pernambuco lançado também no Canal Baobá Ymyrapytã. 


Capa do livro de Antônio Bispo dos Santos. / CNPq – Unb

Em 2021, uma das contribuições, é o Projeto de Extensão (Probex n°01/2021) NEABI - Baobá Ymyrapytã: direitos humanos, antirracismos e memórias “entre-vistas” contra-coloniais. Projeto do DCJ da UFPB e do NEABI, busca confluir simbologias afro-diaspóricas através da árvore ancestral Baobá e acolhimentos indígenas pela árvore originária Ymyrapytã, desta forma, o projeto se constitui contra à hierarquia dos conhecimentos, valorizando as vivências indígenas e quilombolas por direitos, a partir (e com) de Nêgo Bispo (2015). 

Por fim, acreditamos em uma universidade cada vez mais plural e popular, na qual as transformações epistemológicas pautem a de(s)colonização da própria academia a partir de outras pedagogias, dialogando com cosmovisões subalternizadas, denunciando o processo (neo)colonialista. Óbvio que ensino superior público mais democrático não se dá apenas em projetos pontuais e datas simbólicas, marchar no sentido de uma sociedade antirracista exige construir ações/reflexões que impulsione cursos livres e regulares de(s)coloniais, promova eventos de artes, cultura e difusão de documentários afroindígenas, auxilie na produção e na divulgação de relatórios sobre a situação de direitos humanos, anime a publicação de livros e  constitua interações entre pessoas e as instituições de Estado em busca da solução de suas demandas.   

Pedimos muito? Fizemos pouco? Exigimos reparação e demarcação, já! Pois, os saberes construídos nas lutas por emancipação ‘continuarão’ (GOMES, 2017), se hoje Exu arremessou uma pedra ... desde ontem, “(...), tudo, tudo, que ‘nóix tem é nóix’ (...)” (EMICIDA, 2019).  

Asé! 

 

PARA SABER MAIS 

Baobá Ymyrapytã, Canal Youtube - Vídeos (2020). Disponível em: < https://www.youtube.com/channel/UCXE0Tqit2ypD3qbIlyvomYQ/featured >. Acesso em 16 nov. 2021. 

BISPO, Antônio “Nêgo” dos Santos. Colonização, quilombos – modos e significado. Universidade de Brasília; CNPq, Brasília. 2015  

DEALDINA, Selma dos Santos (Org.). Mulheres quilombolas: territórios de existências negras femininas. São Paulo: Sueli Carneiro: Jandaíra, 2020. 

EMICIDA. Principia. São Paulo: Nave - Laboratório Fantasma: 2019. 

FLOR DO NASCIMENTO, Wanderson. Entre apostas e heranças: Contornos africanos e afro-brasileiros na educação e no ensino de filosofia no Brasil. – 1 ed. – Rio de Janeiro: NEFI, 2020 – (Coleção Ensaios; 6). 

GOMES, Nilma Lino. O movimento negro educador: saberes construídos nas lutas por emancipação. Petrópolis-RJ: Vozes, 2017.  

NEABI: Baobá Ymyrapytã, Canal Youtube – Vídeos (2021). Disponível em: < https://www.youtube.com/channel/UCHssVa8iFZ4cQ2Eq0M_HMEg/videos>. Acesso em 15 nov. 2021. 

NASCIMENTO, Abdias. O quilombismo. 2 ed. OR Editor Produtor Editor. Fundação Palmares, Brasília / Rio de Janeiro, 2002.  

SILVA, Givânia Maria da. Educação e luta política no quilombo de Conceição das Crioulas. Curitiba: Appris, 2016.  

 

* Participantes do Projeto de extensão NEABI: Baobá Ymyrapytã e do Grupo de Pesquisa Direitos Humanos, Decolonialidades e Movimentos Sociais (UFPB). Antônio e Victor são graduandos em direito pelo DCJ - Santa Rita (UFPB). Eduardo é Prof. do DCJ - Santa Rita (UFPB) e pesquisador do Grupo de Pesquisa: GEPERGES - Audre Lorde (UFRPE).  

Edição: Heloisa de Sousa