Paraíba

Coluna

A Fome e a Pandemia na Índia

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Fila de mulheres e crianças para almoço oferecido pelo Partido Comunista Marxista da Índia durante quarentena - Foto: Facebook CPI-M
A propagação do vírus da COVID-19 na Índia é preocupante, assim como as consequências na economia


Ellen Maria Oliveira Chaves; Marcelly Thaís Marques Ribeiro e Paola Aparecida Azevedo de Souza*

A propagação do vírus da COVID-19 na Índia é preocupante, assim como as consequências da doença na economia e no sistema de saúde já fragilizado. Com mais de 6,7 milhões de casos positivos e 104 mil óbitos, o país ocupa o 2º lugar no ranking mundial em números de casos confirmados e o 3º lugar em mortes, atrás do Brasil. Em setembro, a Índia chegou a registrar mais de 90 mil casos diários, configurando uma das maiores velocidades de contágio do mundo. Ainda assim, no segundo país mais populoso do planeta, com cerca de 1,3 bilhões de pessoas, a taxa de mortalidade é considerada relativamente baixa.

Além do coronavírus, a Índia também sofre o impacto da fome. Segundo o PMA (Programa Mundial de Alimentos), 138 milhões de pessoas vão ser diretamente afetadas pela fome ao redor do mundo e a Índia será uma das nações mais impactadas. O país, já conhecido pelos altos índices de pobreza, teve seus problemas agravados pela pandemia. A recessão econômica, o retorno de parte da população à linha da pobreza e a ausência de estrutura do sistema de saúde criaram uma crise sem precedentes.

    A informalidade na região foi um dos fatores que impossibilitaram que a população indiana ficasse em casa. Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), mais de 92% da força de trabalho da Índia é informal. Milhões de pessoas, devido ao isolamento obrigatório, perderam seus empregos, rendas e moradias. Sem possuir aposentadoria, licenças ou qualquer tipo de seguro para garantir um mínimo de estabilidade durante a quarentena, a população mais vulnerável começou a depender cada vez mais de doações de alimentos do governo e de instituições. 

A mão de obra predominante nas metrópoles indianas é proveniente de trabalhadores migrantes de várias regiões do país. Assim, milhares de famílias começaram uma grande jornada de êxodo para as cidades natais em busca de melhores condições, aliás, uma dinâmica comum em muitos países em desenvolvimento. As autoridades do país não previram o impacto dessa movimentação, por isso os meios de transporte que ainda estavam em funcionamento nos primeiros meses de isolamento não comportaram as pessoas, causando superlotação e maiores aglomerações, um meio propício para aumentar a curva de infecções. Milhões de trabalhadores se tornaram refugiados dentro do próprio Estado e, sem condições de ir de trem ou ônibus, seja pela superlotação ou pela condição financeira, iniciaram uma jornada a pé para suas casas. Caminhando horas e até dias sem parar, homens, mulheres e crianças se locomovem até ficarem sem condições, exaustos, famintos e desidratados. Muitos morreram no meio do caminho. Foram registados, até o começo de julho, mais de 300 mortes decorrentes de exaustão física, acidentes de trens, fome e desidratação. 

Antes do início da pandemia, mais de 194 milhões de pessoas passavam fome na Índia. Com o início dos bloqueios à circulação no final do mês de março, a população mais pobre, vulnerável e dependente da saída diária de casa para trabalhar preocupou-se de imediato com a alimentação. No começo de abril, com pouco mais de um mês de confinamento, já havia relatos de muitas famílias que não tinham o que comer. A falta de programas de auxílio financeiro no início do isolamento foi um dos motivos que levaram à migração urbano-rural. O governo prestou assistência insuficiente aos trabalhadores informais, que colocaram a suas vidas e de suas famílias em risco na fuga da fome das grandes áreas urbanas. Mesmo com o posterior anúncio de ajuda emergencial, este não foi capaz de suprir as necessidades da população. Os bloqueios causaram, também, restrições nas cadeias de distribuição de alimentos. Nas pequenas aldeias e comunidades, as famílias relataram ficar sem produtos básicos, como óleo e sal. Os pequenos agricultores perderam parte de suas produções, pois ficaram sem ter como escoar e vender os alimentos. 

A Índia é, atualmente, a quinta maior economia do mundo e uma das economias emergentes que mais cresceram nos últimos anos. Entretanto, vinha em um processo de desaceleração econômica mesmo antes da pandemia. Com a pandemia, a recessão econômica adquiriu uma maior velocidade. Estimativas preveem um encolhimento de 8,5% na economia indiana em 2021. No segundo semestre deste ano foi registrada uma redução de 25% do PIB do país e, até o final do ano, previsões apontam um retorno de 200 milhões de indianos à linha da pobreza.

A pandemia agravou a fome em um mundo já faminto. O relatório da Oxfam Brasil, publicado em junho, identifica a Índia como um dos possíveis epicentros globais da fome, assim como o Brasil e a África do Sul. O governo indiano falhou ao não prover as condições necessárias para que população permanecesse em casa, culminando em uma onda migratória que foi a principal responsável pela disseminação do contágio por todo país. A ausência de esforço governamental para amenização dos impactos econômicos e sociais da pandemia na população indiana pode tornar a desigualdade social ainda maior no país, ampliando as disparidades econômicas entre as classes e aumentando os índices de fome e insegurança alimentar. 

-Acesse o blog www.fomeri.org do Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais para acompanhar as principais notícias e relatórios de organizações internacionais sobre como a pandemia afeta a segurança alimentar e nutricional pelo mundo

*O Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais da UFPB é formado por: Prof. Thiago Lima; Ellen Maria Oliveira Chaves; Marcelly Thaís Marques Ribeiro; Paola Aparecida Azevedo de Souza

Edição: Cida Alves e Henrique Medeiros