Paraíba

ARTIGO

A barbarização da força de trabalho: o capitalismo que deu certo?

"E para quem eu trabalho? Para ninguém. Quais os meus direitos? Nenhum"

Brasil de Fato | João Pessoa - PB |
Reprodução - Foto: Henrique Arakaki

No dia 05 de setembro de 2020 um jornalista noticia, com um belo sorriso, o aumento da compra de motos em meio à pandemia. Aparentemente, uma notícia boa. A reportagem apontava que o aumento se deu devido às pessoas quererem fugir das aglomerações nos transportes públicos e pelo aumento do delivery em mais de 30% já notado em março. O jornal ainda relatou que havia pessoas comprando de 8 a 10 motos de uma vez para alugar nesse trabalho de delivery. Mas qual o problema nisso?

Esse é o capitalismo que falam que deu certo. Um capitalismo que mata, que nega, que barbariza nossa existência.

Atentando-se a esse segundo ponto, que é a grande razão desse aumento, vemos os trabalhadores que realizam entregas, os conhecidos entregadores. O aumento do desemprego, decorrente da pandemia e de um governo descomprometido com o povo, elevou o trabalho informal. Nele, não há segurança, direitos ou estabilidade financeira. Os entregadores fazem parte desse trabalho informal, onde a força de trabalho não é vendida, como nos trabalhos formais, com as trabalhadoras e trabalhadores respaldados por direitos e condições minimamente dignas de trabalho. Ao contrário, essa força de trabalho é barbarizada.

Eu posso muito bem, na situação de desemprego, procurar fazer entregas e, mesmo sem moto, posso alugar uma. Mas eu preciso pagar o aluguel da moto e ao aplicativo. E para quem eu trabalho? Para ninguém. Quais os meus direitos? Nenhum.

Outro dia presenciei um quase acidente de um desses entregadores. Por sorte e dessa vez, saiu ileso. Mas se ele tivesse se acidentado enquanto trabalha, quem o protegeria? Quais leis o ampararia? Quais benefícios? Nenhum, absolutamente nenhum. 

O aumento do desemprego, decorrente da pandemia e de um governo descomprometido com o povo, elevou o trabalho informal.

Esse é o capitalismo que falam que deu certo. Um capitalismo que mata, que nega, que barbariza nossa existência. Esse mesmo capitalismo tenta nos fazer acreditar no argumento: “Mas ele tem um emprego e está sustentando sua família.” Ele nos cega para a verdade: a alternativa de que ele poderia ter um emprego e sustentar sua família com condições dignas de trabalho, com direitos, com um governo comprometido com as trabalhadoras e os trabalhadores e com uma sociedade mais justa. O que não é, nem de longe, as intenções do desgoverno atual.

*Natália Ramos é Psicóloga e Militante da Consulta Popular
 

Edição: Cida Alves e Henrique Medeiros