Paraíba

Coluna

Caminhos para a Maternância: Visibilidade das Mulheres Lésbicas e Bissexuais

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Resistências da maternância que nós acreditamos e defendemos

Por Juciane de Gregori

Os meses de agosto e setembro são marcados pela visibilidade das mulheres lésbicas e bissexuais. Nesses caminhos, vislumbramos a maternância como elemento central para fortalecer tais resistências. 

A agenda edificada por meio da visibilidade das mulheres lésbicas e bissexuais traz consigo os desafios de nortear também reivindicações antirracistas, antifascistas, antipatriarcais e anticapitalistas. 

Desde 1996, o dia 29 de agosto foi consolidado como Dia Nacional da Visibilidade Lésbica através da realização do 1º Seminário Nacional de Mulheres Lésbicas no Brasil (SENALE), que atualmente é Seminário Nacional de Mulheres Lésbicas e Bissexuais (SENALESBI). Sua primeira edição ocorreu no Rio de Janeiro com a presença articulada de movimentos, organizações, grupos, núcleos e redes de luta com atuação nacional relacionada a mulheres lésbicas. Também desde 2003, o dia 19 de agosto foi consagrado como Dia Nacional do Orgulho Lésbico, em memória de um enfrentamento do movimento de mulheres lésbicas ocorrido nessa mesma data, em 1983, em São Paulo. Na ocasião, em plena ditadura militar, o grupo protestou contra as violências lesbofóbicas que se intensificavam no entorno do “Ferro’s Bar”, espaço este marcado pela resistência contra as opressões e lutas pela liberdade.

Em setembro, por sua vez, o dia 23 foi estabelecido internacionalmente como marco da Visibilidade Bissexual e, no que se refere à mobilização das mulheres bissexuais no Brasil, percebemos como estamos em um contexto que demanda uma agenda de lutas unificadas. Nessa construção, a delimitação da representatividade e a importância dos protagonismos de cada pauta devem ser prioritárias, mas ressaltamos como as diversidades se entrelaçam como vetor para potencializar as resistências coletivas.

Tais diversidades contemplam identidades e dimensões plurais, que, a partir das mulheres lésbicas e bissexuais, constroem uma base de movimento onde a visibilidade é ancorada em reivindicações interseccionais. É preciso frisar que não estamos em concordância com a compreensão de mulheres lésbicas e bissexuais em uma lógica cisnormativa excludente das mulheres LesBi-TRANS. Destacamos que o combate a transfobia deve ser algo transversal dessa mobilização. Não só gênero e sexualidade direcionam essas lutas, mas também classe, raça, etnia e território, com a construção de projetos políticos que atendam a garantia de direitos voltados para essa população. Assim, a agenda edificada por meio da visibilidade das mulheres lésbicas e bissexuais traz consigo os desafios de nortear também reivindicações antirracistas, antifascistas, antipatriarcais e anticapitalistas. 

Contra todas as formas de violação de direitos, temos trilhado esse embate e na Paraíba, no decorrer deste ano de 2020, mesmo em meio a situação pandêmica, com toda a crise de saúde, que também é política e econômica, o Movimento de Mulheres Lésbicas e Bissexuais reafirmou sua luta unificada em uma agenda coletiva junto ao Maria Quitéria - Grupo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais da Paraíba, com atividades de agosto a setembro, norteadas pelo tema: “Equidade Sim, Racismo Não! Onde Estão as Mulheres Lésbicas e Bissexuais?”. Durante essa programação, que ainda está em andamento, também houveram ações em diálogo com o “Agosto Lilás”, que destaca a importância do combate às violências contra as mulheres a partir da Lei 11.340/2006 – Lei Maria da Penha, que este ano completou 14 anos desde a sua promulgação, ocorria em 7 de agosto de 2006.

Sempre houve intenso protagonismo e participação de mulheres mães, seja enquanto mulheres mães LBT atuantes na luta pela nossa visibilidade com dignidade


Especificamente quanto a nossa Coletiva de Mães, em coalização com a agenda acima, estivemos e estamos fomentando a organização das seguintes transmissões de debates virtuais: 
- 28/08 – “Combate à Violência contra as Mulheres LBT” (em parceria com o Projeto de Extensão da UFPB “As Mulheres Ocupam as Praças” e com o Fórum de Mulheres em Luta da UFPB); (já realizado)
- 10/09 – “Maternidade, LesBifobia e Deficiências” (realizada pela Coletiva de Mães Pachamamá);
- 18/09 – “Onde Estão as Mulheres Lésbicas e Bissexuais?” (em parceria com o Projeto de Extensão da UFPB “Mulheres no Vale do Mamanguape” e com o Fórum de Mulheres em Luta da UFPB).  

Com essa breve retomada histórica e adentrando nossa conjuntura atual, ressaltamos que, ao longo de todos esses processos, sempre houve intenso protagonismo e participação de mulheres mães, seja enquanto mulheres mães LBT atuantes na luta pela nossa visibilidade com dignidade, seja enquanto agentes em defesa de nossas crianças e jovens LGBTs. Essa é a dimensão da maternidade, traduzida pelas resistências da maternância, que nós acreditamos e defendemos, não só como mecanismo para (re)evolução e transformação da atual sociedade, mas também como direção estratégica para defesa da equidade desde a infância e a adolescência.

Nós, mulheres mães lésbicas, bissexuais e transexuais, estamos organizadas e seguiremos juntas contra a invisibilidade e a exclusão, combatendo todas as formas de violência, racismo, machismo, sexismo, desigualdades e LGBTfobias que acometem as nossas existências e a de nossas filhas/es/os. 

*Juciane de Gregori – integrante da Coletiva de Mães Pachamamá e do Fórum de Mulheres em Luta da UFPB.Graduada em Psicologia, Mestra em Direitos Humanos, Mestra e Doutoranda em Sociologia. Pesquisadora da área de Teoria de Gênero, Estudos da Sexualidade e Violência.

Edição: Cida Alves e Henrique Medeiros