Paraíba

HIP HOP | ENTREVISTA

La 6 Crew: a nova onda do Rap PB, empreendedorismo coletivo, desafios e pandemia

Conheça a história do grupo de Rap de Bayeux que conquistou a Paraíba com 12 integrantes no palco

Brasil de Fato | João Pessoa - PB |
Divulgação - Card


Divulgação / Card

A cultura Hip Hop sempre pregou a união, a luta por direitos iguais e contra a opressão do sistema, mas além disso, a ascensão social e o empreendedorismo independente sempre estiveram arraigados aos valores desta cultura, já que os negros e latinos que residiam no Bronx e no Brooklyn de 1972, eram em sua maioria imigrantes e tinham inúmeras dificuldades em se inserir no mercado profissional e conseguir boas oportunidades de emprego ou de negócios. 
Sabemos que essa exclusão social inclusive fez e faz até hoje com que muitos jovens da periferia se envolvam com o crime e o tráfico de drogas para conseguirem sobreviver e é justamente aí onde entram o Breakdancing, o Grafite, o Rap, o Djing e todos os outros elementos do Hip Hop - como alternativa a vida criminal e a oportunidade de se organizar e conseguir seus sustentos de uma outra maneira, através da arte e do empreendedorismo coletivo.

De 2016 para cá, uma nova onda começou a se manifestar no Rap nacional (algo que já era comum no Rap gringo), uma forma de se fazer Rap que envolvia menos letras de conscientização que contassem histórias tristes ou atacasse diretamente ao governo e ao sistema, e mais mensagens de motivação, de ascensão social, de desejos e ambições. Essa mudança no conteúdo das letras veio associada a uma batida diferenciada, com um BPM (batidas por minuto) mais acelerado e uma bateria mais espaçada, com graves mais presentes e melodias simples, porém  marcantes, essas características constituem o subgênero do Rap que conquistou o mundo inteiro nos últimos anos: o Trap.

Por desviar um pouco o foco do Rap dos debates políticos e da polarização vigente, o Trap recebeu inúmeras críticas da esquerda desde que chegou no Brasil, ainda que por exaltar a autoestima do povo preto e periférico e defender a liberdade sexual e a legalização das drogas, não seja um gênero musical alinhado ou que simpatize com a direita conservadora que atualmente está no poder.

A questão central, é que o Trap se estabelece em uma brecha, criada pela necessidade dos/das jovens pretos/pretas e periféricos/periféricas de organizarem-se por conta própria e mudarem suas vidas a partir do próprio trabalho e talento, sem depender de nenhum partido, movimento social ou privilégio, empreendendo com suas próprias ferramentas e com coletividade a conquista de uma realidade melhor para si, proporcionada pelo sucesso financeiro.

Desta forma o Trap não se alinha nem com a esquerda nem com a direita no campo político, ainda que alie um ideal social progressista (antirracismo/antiproibicionismo/antifascismo) com o ideal liberal do empreendedorismo de si mesmo (ser sua própria marca/ tornar-se seu próprio negócio). Como diz um dos maiores Rappers brasileiros dessa geração, Djonga: “Esquerda de lá, direita de cá e povo segue firme tomando no centro”

Podemos citar inúmeros exemplos de jovens e até mesmo crianças que mudaram suas vidas e de suas famílias através do sucesso na carreira artística no Trap brasileiro: Dfideliz, Raffa Moreira, Klyn, MC Caverinha, Meno Toddy, Borges, Flacko etc.

No entanto, vamos nesse momento vamos focar na cena da Paraíba e num grupo que marcou a transição para esta nova fase do Rap PB: La 6 Crew. 
 

Segundo rapper e produtor do grupo de Rap de Bayeux, tudo começou por intermédio de movimentos culturais, organizados por jovens apaixonados pelo Hip-Hop. Tendo em vista que a cidade de Bayeux tinha uma ausência de Batalhas de Rima, o grupo se organizou e criou a famosa “Batalha da 6” que já esteve entre as 3 maiores do estado da Paraíba, sendo alguns integrantes fundadores da Batalha da Lagoa (7hug) (a primeira roda de rimas semanal fixa da 
cidade de João Pessoa).

A aproximação e a vivência dos integrantes gerou a ideia de criar-se um “Coletivo Musical” totalmente independente, em dúvida com o nome do grupo os integrantes fizeram uma reunião, consequentemente o surgimento da La6 Crew e um novo estilo de fazer Rap na Paraíba.

O coletivo começou em meados de 2017 com os integrantes, Viela MC, Gramhma, Bloock, Xulz, 7hug & Plugmeta. Com o passar do tempo foram adicionado mais integrantes (UGT, Dayane (Belchi), Renata, Jamal, K3, Hemp, Dree & Yoshida)  com intuito de fomentar a cena local e estimular o surgimento de novos MC’S de batalha e de música.
Atualmente o grupo soma mais de 3 mil inscritos em seu canal do You Tube e cerca de 250 mil visualizações em suas mais de 60 músicas e quase 30 videoclipes lançados de dezembro de 2017 até esse ano. 
 


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Atualmente o grupo é formado pelos integrantes: 7hug, UGT, K3, Supboy, Dj Jan, Renata, Gramhma e Plugmeta.
 
print do You Tube/reprodução

Assim como toda a classe artística e todos os microempreendedores brasileiros o grupo foi afetado pela crise global de saúde causada pelo novo coronavírus, e falaram para nossa redação sobre como estão lidando com isso, dentre outros detalhes sobre sua trajetória no mundo da música.

Confira a entrevista concedida a redação do Brasil de Fato PB:

Brasil de Fato PB: O que o Rap transformou em suas vidas?

Plugmeta - “O RAP me mostrou que de fato existe algo especial em quem transmite o que sente. A vontade de querer fazer, a energia exercida em rimas, a irmandade que se tem com quem compartilha do mesmo sentimento que você é algo que faz você expandir humanamente.”
 
Supboy - “A cultura do hip-hop em si particularmente me trouxe uma auto-estima que antes eu não tinha. A partir do Rap eu pude expressar meus pensamentos e sentimentos em uma fase da minha vida em que me senti totalmente desgastado e oprimido. O rap me trouxe a minha essência, uma oportunidade para que eu possa mostrar às pessoas que elas podem serem o que quiserem.”

Renata - “No rap eu encontrei motivos para ter alto estima pra erguer minha cabeça e lutar pra que nossa luta fosse valorizada.”

Gramhma - “Eu já cheguei transformado quando entrei em contato de fato com o rap.  O rap em se foi a ferramenta de expressão que escolhi pra ser transmissor de mim e do que acredito.”

DJ Jan - “Minha forma de agir e raciocinar sobre os fatos acontecidos e que acontecem em meio dessa cultura que hoje está sendo popularmente conhecida no mundo.”

K3  -  “O Rap sempre foi pra mim, uma libertação para minha alma. 
O Rap me fez enxergar o lado obscuro da política e religião. 
Fazendo me tornar um adulto na adolescência, e me fazendo sair da rota do crime. Mesmo com tantas dificuldades financeiras na vida, o Rap sempre me fazia enxergar um dia melhor que estava próximo. Quando perdi meu irmão pro crime pensei em voltar pras “ideias” e vingar a morte do meu irmão, mas primeiro Deus e segundo o Rap fizeram eu mudar de ideia e seguir minha minha vida tranquilamente.”

7hug -  “Bom, o rap me deu vida, autoestima, coisas que eu não via em mim antes conhecer o movimento, mudou meu jeito de ser, me fez se de amizades quais não me acrescentavam, e de certa forma me deu forças pra não acabar como muitos amigos meus quais não estão mais aqui presente, acho que posso dizer com todas as palavras que o rap salvou minha vida”

UGT - “Para mim, foi uma base de tudo, onde eu encontrei uma motivação principalmente para viver, pois a música é modificadora e com ela eu decidi trabalhar.”

Xulz -  “O rap me fez conhecer novas pessoas e perceber que tinha nascido pra fazer aquilo, ta ligado. ”

Viela -  Em minha vida o RAP mudou muita coisa ,  desde de sempre , coisas boas vinheram com o RAP , muito conhecimento adquirido, é o que importa para mim.

Bloock - “Um sentimento satisfatório e uma sede de conquista que me motiva até hoje, o intuito era fazer uma Batalha, 3 anos depois ver os Mc's que foram frutos do projeto compondo ligeiramente uma cena Underground forte.”


Brasil de Fato PB: Quais foram/são os maiores desafios em manter um grupo de Rap na Paraíba?

Plugmeta - “Os maiores desafios de manter um grupo de RAP na Paraíba na minha opinião o problema sempre foi encaixar uma fonte fixa de investimentos para os projetos. De forma independente você precisa ter a disposição para aprender e ser autodidata em todos os aspectos. Pois, custear todos as etapas de uma produção é um ponto fora da curva para jovens que na maioria dos casos não tem uma renda fixa. Além de que os investimentos não dão retorno em dinheiro, você só faz para expor o que você acredita e ama.”

Supboy - “Acredito que a maior dificuldade ainda é o apoio do público e a desvalorização do mesmo, as oportunidades comparadas aos outros gêneros musicais ainda é muito pouco. Não tem show suficiente, não tem uma base monetária para que possa motivar nós artistas de Rap e ainda há uma desvalorização pelas partes dos contratantes.”

Renata - “Acredito que o apoio das pessoas do nosso meio já sofremos muito com haters.”

Gramhma - “É difícil manter qualquer grupo de pessoas em torno de qualquer ideia, seja musical ou política. No começo é difícil por toda luta e sacrifício não serem recompensadas a altura, falo no sentido de reconhecimento e financeiro. Além disso, mesmo sem grana e fama, ainda há  desejos e anseios individuais entre artistas, algo que pra mim é ótimo! O problema é que muitos não sabem lidar com as  diferenças artísticas e pessoais dentro de um mesmo grupo.”

K3 - “O primeiro desafio é sempre a questão financeira, como todos vocês sabem, a LA6CREW foi montada por uma galera periférica que não tinha muita condição financeira. Então, falta de estrutura sempre foi nossa dificuldade maior eu acredito.” 

7HUG -  “Desafios são vários, sejam de interesses pessoais, sintonia coletiva, dinheiro, paciência pra absorver novas ideias, e afins, muitas coisas acontecem pra que existam conflitos entre os grupos, não se pode apontar somente uma dificuldade pra isso, a cara é se sentir confortável em fazer acontecer da sua forma, seja pessoal ou coletivamente.”

UGT - “Alinhar as ideias, saber lidar um com o outro tudo isso faz parte porque tudo é uma construção assim como a música.”

Xulz - “Mano, os maiores desafios são: Falta de equipamentos e investimento, o trabalho coletivo (por que trabalhar com muitas pessoas com pensamentos diferentes causa conflitos), o público local não valoriza sua arte.
Fora a panela da cena de João Pessoa, que tudo que não está dentro da panela de militância, eles tentam vetar.”

Viela - “Hoje eu penso e tenho certeza que as dificuldades que existem em na Paraíba são a mesmas de outros estados brasileiros, a falta de apoio do estado e do próprio público deixam as coisas um pouco" mais" difícil , desde 2015 conheço isso.”

Bloock - “Vários fatores são desmotivadores para a cultura em só no Estado, mas acho que o maior empecilho para alguém que está começando ou até mesmo estabilizado na cena é a falta de informação coletiva.”

Brasil de Fato PB: Quais foram os melhores momentos da LA6CREW?

Plugmeta - “Os melhores momentos da LA6CREW não foram publicados, todo o processo de aprendizagem e loucuras feitas pela gente em diversas etapas das nossas vidas tornaram o que a gente é hoje. Mas vale pontuar que,  os shows, as gravações que nunca saíram, o processo de gravação do nosso primeiro EP construído, às reuniões, às opiniões contrárias que depois você repensava e abraçava a ideia do seu amigo, abraçava-nós, éramos como irmãos.  O frio na barriga de ver algo construído com muito esforço dando certo, o sorriso no rosto em ouvir as pessoas cantando nossa música, pra mim esses são os melhores momentos.”

Supboy - “Sem sombra de dúvidas os melhores momentos foram o lançamento do single "Até a Noite Acabar" e ver a proporção de pessoas que a música atingiu. Foi no final do ano de 2019 em qual a LA6CREW fez dois shows importantes de grande visibilidade ao público, o Clima quente e o Lama no Copo.”

Renata - “Além dos show que sempre tem uma energia incrível,ser reconhecido na rua como integrante da LA6CREW  foi uma sensação maravilhosa.”

Gramhma - “Pra mim foram os momentos de Studio e reunião, vi todos evoluírem artisticamente e alguns outros, também humanamente.”

K3 - Os melhores momentos na minha opinião, vocês podem ver no LA6CREWTV, aqueles são nosso melhores momentos.

7hug - “Acredito que na construção da nossa mixtape de fim de ano a “panetone tapes vol.1”, coisa que nem foi feita na intenção de ser uma, todos ali estavam em uma mesma sintonia de estúdio e vivência que nos resultaram muitas músicas que tocam até hoje, como por exemplo “não vou voltar, até a noite acabar, Fanta de kiwi”, dentre tantas outras quais não me vem à mente no momento, mas que me marcaram, e a consagração disso tudo foi o evento no festival o grito qual fomos no ano seguinte, qual ficou lotado e ainda tinha gente querendo entrar sem poder pela quantidade de gente no local, sem falar a sensação de ver todo mundo cantando e pulando com as nossas músicas, aquilo foi gratificante demais, e foi ali que eu vi que era isso que eu queria pra minha vida.”

UGT - Os melhores momentos da LA6CREW foram cada momento  compartilhado entre integrantes sobre a evolução musical e sobre os patamares que conseguimos alcançar e todo aparato do público que sempre nos apoiaram.
 
Xulz -  “Os melhores momentos da LA6, pra mim foi no final de 2018, embora ainda não tivesse alcançado o público que tem agora, aquela época era a que todos do grupo realmente estavam em sintonia e tudo estava fluindo perfeitamente. Sem contar os rock no estúdio.”

Bloock - “Sem dúvida aos primeiros momentos quando pensávamos em estruturar o projeto do coletivo onde não medimos esforços para sonhar, e fizemos acontecer o projeto LA6CREW que rende e rendeu vários frutos.”

Brasil de Fato PB: Como a pandemia afetou o trabalho de vocês enquanto artistas e como contornar isso?


Plugmeta- “No início do ano tínhamos tudo arquitetado e todo um planejamento a seguir, o tempo foi passando, tivemos perdas importantes na nossa line e isso desestabilizou um pouco o andamento de tudo. Logo após a pandemia começou a ligar o alerta no Brasil e a gente ficou sem nos encontrar pois, estávamos de quarentena e como não temos um estúdio separado em um ponto comercial a ida para o estúdio ficou bem mais complicada por ser na minha casa. Nossos projetos musicais não estavam saindo do papel e isso afetou um pouco em todos, porque o tempo está passando e a gente sempre precisou correr muito para conseguir o que a gente conseguiu.”


Supboy - “A verdade é que não temos uma base estruturada como um Studio, tudo ainda é feito de forma "caseira", dependemos de certas coisas pra que possamos produzir e com a chegada da pandemia escolhemos optar pela saúde e prevenção (óbvio). Acredito que ao decorrer da normalização das coisas, devemos continuar trabalhando com qualidade como sempre trabalhamos e o resultado com certeza será uma boa colheita, independente do tempo.”

Renata - “Nossa produção parou, os lançamentos diminuíram bastante.”

Gramhma - “A Pandemia afetou no contato direto com o público e com as produções musicais. As mídias sociais são as alternativas para o momento.”

7hug - “Nos afetou pois limitou totalmente a vivência em conjunto qual a gente sempre teve, dando dificilmente também em gravar músicas novas junto ao coletivo, e a forma de contornar isso tá sendo agora, pois foi o único momento qual a pandemia deu uma amenizada no nosso estado digamos assim, agente não pode se reunir todo mundo, mas dá pra continuar com as gravações indo um por dia ao estúdio, se prevenindo é claro, e mantendo o contato via WhatsApp, facilitando a troca de ideias, formação de novos projetos, e opiniões sobre nossas músicas e sobre o cenário local.”

UGT - “A pandemia afastou um pouco o convívio da gente, que era algo que a gente sempre costumava a fazer, se reunir toda semana para ficarmos juntos debatendo ideias e focando em novos projetos.”

Bloock - “O fato de não poder interagir diretamente com o público já afeta qualquer meio artístico então não existe um contorno específico existe quem se adapta mais rápido as necessidades da vida, pessoalmente não me atingiu tanto na área produtiva pois gravo meus trabalhos no meu home studio.”

Edição: Cida Alves