Paraíba

PERIGO

Prefeito de Campina Grande reforça equipe pra agilizar aplicação de hidroxicloroquina

Envolto em polêmicas e seguindo em estudo, medicamento ainda não é recomendado para uso

Brasil de Fato | João Pessoa - PB |
Agência AFP - Foto: Piero Cruciatti

O prefeito de Campina Grande, Romero Rodrigues (PSD) mandou reforçar, na última quinta-feira (04), a equipe de uma das UPAs da cidade para agilizar na aplicação do protocolo à base de Hidroxicloriquina. Ele designou três novos médicos à unidade e a entrega novos equipamentos que possam contribuir no atendimento aos pacientes, juntamente com as tendas montadas pelo Exército, na parte externa da unidade.

“Trata-se de um protocolo que tem apresentado resultados positivos em estados como Pará, Maranhão e Piauí, com notáveis vantagens para os pacientes e também por diminuir o risco de colapso ao nosso sistema de Saúde”, afirmou Romero Rodrigues, na ocasião em que anunciou o protocolo. Segundo o secretário municipal de Saúde de Campina Grande, Filipe Reul, a vantagem imediata é que, por esse novo protocolo, o paciente acelera a cura e não ocupará por muito tempo os leitos de internação. 

Dados oficiais no site da prefeitura de Campina Grande apresentou 2.967 casos  confirmados (eram 2.473 na segunda-feira, dia 08 - um aumento de 494 casos em dois dias), com 62 óbitos (eram 56 até a segunda-feira). Mesmo com um vetor de contaminação em plena ascensão, o Prefeito Romero, anunciou, no final da tarde da quinta-feira (04) que autorizou os empresários de transporte a manterem 30% da frota de urbana em plena circulação pelos próximos 10 dias.
 


Imagem: Reprodução do site oficial campinagrande.pb.gov.br/ (10/06 - 15h)

Felipe Proença, Médico de Família e Comunidade, Professor da UFPB, também foi coordenador do programa Mais Médicos em âmbito nacional, demonstra preocupação com a decisão do protocolo: “Todas as sociedades científicas têm olhado com muita cautela a indicação de cloroquina ou de hidroxicloroquina, com associação ou não, no tratamento da covid-19. Existe uma teoria de que ela teria algum benefício em casos leves, mas mesmo assim, o que tem se demonstrado, e que as sociedades científicas têm recomendado, é que tem que ser olhado em protocolos experimentais somente em âmbito hospitalar, até por causa da série de efeitos colaterais que a medicação causa, e que tem de ser monitorado. Então, do ponto de vista da evidência científica, eu acho que é bastante precipitado. 

Ele diz que é perigoso o uso do medicamento, mesmo no âmbito hospitalar: “Recomendar, ainda mais no âmbito de um protocolo, o uso de cloroquina para casos leves, mesmo no âmbito hospitalar, não há evidência suficiente para dizer que tem benefício, apesar de que, em âmbito de pesquisa não se exclui a possibilidade de se utilizar”.

“Toda a medicação que a gente coloca num protocolo ou que a gente prevê a prescrição para um determinado serviço de saúde, além de ter certeza do benefício da evidência, dos benefícios desta medicação, a gente também tem que ter um bom indicativo de que ela não vai causar um um dano maior do que se ela não estivesse sendo utilizada. Então o grande remédio para covid continua sendo o isolamento social e seguir investindo na ciência e na pesquisa para que se possa encontrar uma vacina para essa doença”

Então o grande remédio para covid continua sendo o isolamento social e seguir investindo na ciência e na pesquisa para que se possa encontrar uma vacina para essa doença - Felipe Proença, médico

Recomendações da Anvisa 

Procuradores em São Paulo, Rio de Janeiro, Sergipe e Pernambuco questionavam a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), desde o dia 21 de maio, sobre aspectos relacionados às orientações do Ministério da Saúde para a ampliação da prescrição de cloroquina e hidroxicloroquina com azitromicina para pacientes com sintomas leves e moderados da Covid-19 no Sistema Único de Saúde (SUS). Somente nesta segunda-feira (08) a reguladora decidiu revisar os dados para decidir se os quatro estudos clínicos com o uso de hidroxicloroquina para tratar pacientes com a covid-19, autorizados até o momento, possuem segurança suficiente para prosseguirem. 

No entanto, a agência ainda não homologou a utilização em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação pelo novo coronavírus. “A automedicação pode representar um grave risco à sua saúde”, disse a Anvisa.

Posição do Presidente da República

Na primeira quinzena de maio, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), parabenizou o prefeito de Campina Grande por permitir que fosse implantado o protocolo: “Quem sabe, né? Pode ser que lá na frente digam que a cloroquina foi um placebo, ou seja, não serviu para nada. Mas, pode ser que daqui a dois anos digam 'olha, realmente curava'. E o Romero e eu não vamos ter o peso na consciência 'ó, morreu e podia ter salvo”. Poucos dias depois, Bolsonaro fez chacota e polarizou: "Quem for de direita toma cloroquina, de esquerda toma Tubaína", zombou o mandatário.
 


Prefeito Romero almoça com Bolsonaro em Brasília (nov/2019) / Foto: Reprodução

O ex-capitão do Exército, embora sem nenhum tipo de convivência no campo da Saúde, reitera e recomenda o uso da cloroquina: “O meu entendimento é que ela deve ser usada desde o início por parte daqueles que integram o grupo de risco. [Para] pessoas com comorbidades ou de idade, já deve ser usada a hidroxicloroquina”, disse Bolsonaro.

Para ele, “pode dar certo, pode não dar certo [a cura do paciente]”, mas enquanto não houver medicamento eficaz contra a Covid-19, a cloroquina deveria ser utilizada. “Apesar de saberem que não tem confirmação científica da sua eficácia. Mas como estamos em uma emergência, a cloroquina, que sempre foi usada desde 1955, e agora com a azitromicina, pode ser um alento para essa quantidade enorme de óbitos que estamos tendo no Brasil”, disse.

Evidências científicas inconsistentes

A França proibiu o uso do medicamento, seguida por Itália, Bélgica e Espanha. Em seguida, a agência de saúde da OMS decidiu suspender os testes depois que um estudo publicado na revista científica The Lancet revelou que o produto significaria um risco para a saúde. A suspensão “temporária” de ensaios clínicos internacionais com hidroxicloroquina foi por “precaução”.

A conclusão que motivou a decisão da OMS é de que nenhum desses compostos apresentaram benefícios aos pacientes hospitalizados pela covid-19, mas aumentam o risco de sofrerem arritmias e virem a óbito.
A mortalidade no grupo de controle que não recebeu os fármacos foi de 9,3%, enquanto entre os que tomaram os medicamentos morreram 16% no grupo que tomou apenas cloroquina e 23% no que tomava hidroxicloroquina e um antibiótico. 

Na segunda-feira (08), a OMS optou por voltar a realizar os testes com o remédio. Mas até agora não o incluiu entre os produtos recomendados, nem para tratamento e nem para prevenção. A agência insiste que, por enquanto, não existem evidências científicas que comprovem a sua eficiência.

A cientista-chefe da agência, Soumya Swaminathan, disse na quarta-feira (03) que a organização continua a incentivar os estudos de medicamentos contra a doença, no quadro atual. No entanto, ela ressaltou que o que foi permitido foi a retomada dos estudos clínicos: "Isso é muito diferente de fazer uma recomendação" de uso do medicamento, ressaltou, apontando que as investigações em andamento é que devem mostrar se ele pode ou não ser eficiente contra a doença. Para ela, as idas e vindas em relação ao remédio é um "processo normal da ciência".
 


Cientista-chefe da agência, Soumya Swaminathan / Foto: Reprodução

Dois dias depois, na sexta-feira (05), Soumya Swaminathan informou, durante entrevista coletiva, que um grande estudo conduzido no Reino Unido não encontrou benefícios no uso da hidroxicloroquina para o tratamento da covid-19. Ela se refere ao ensaio clínico Recovery, realizado em território britânico: "Eles concluíram que não há benefício do uso da hidroxicloroquina na mortalidade em pacientes hospitalizados de covid", afirmou ela.


Isso é muito diferente de fazer uma recomendação" de uso do medicamento, ressaltou Soumya

Os estudos feitos pela OMS e pelos britânicos são independentes e o avanço do conhecimento sobre a doença exige cruzamento de informações e a exasperação de testes e pesquisas.

Procedimentos na Secretaria de Saúde de CG

Segundo Filipe Reul, secretário municipal de Saúde de Campina Grande, as pessoas com sintomas de covid-19 passarão a ser tratadas, nessa fase inicial, com um coquetel de medicamentos que inclui a hidroxicloroquina e continuará a ser medicado com o coquetel, mesmo que seja liberado para casa, ainda que sob monitoramento da equipe da Saúde Municipal.

De acordo com ele, a vantagem imediata é que, por esse novo protocolo, o paciente acelera a cura e não ocupará por muito tempo os leitos de internação. O secretário alerta, contudo, que não será aplicado o coquetel em grávidas, cardiopatas e outras condições especiais de saúde. O uso de medicamento exige a assinatura da/o paciente.

 

 

 

 

 

Edição: Heloisa de Sousa