Coluna

Os Afro-Caribenhos: Aimé Césaire e Frantz Fanon*

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Frantz Omar Fanon - Reprodução
Aimé Césaire e Frantz Fanon se cruzam o tempo todo nas obras e trajetórias

Aimé Fernand David Césaire (1913-2008) e Frantz Omar Fanon (1925-1961) foram conterrâneos, nasceram na Martinica, uma ilha de colonização francesa no mar do Caribe. Para brasileiros, a expressão “Martinica” é musicalmente lembrada por uma marchinha carnavalesca muito popular, “Chiquita Bacana” (1949), de autoria de Braguinha/Alberto Ribeiro. A representação carnavalizada soava nos nossos ouvidos completamente ignorantes do Caribe francês: “Chiquita Bacana lá da Martinica/ Se veste com uma/ Casca de banana nanica”. Esse rápido refrão, para quem assimilou alguma noção básica de história dos manuais escolares, implicava lembrar alguma “República de Bananas” na América Central. Depois desse refrão eletrizante segue-se música numa única estrofe: “Não usa vestido, não usa calção/ Inverno pra ela é pleno verão/ Existencialista (com toda razão!)/ Só faz o que manda o seu coração”. Carnaval, verão, tudo bacana, assim não haveria racismo nessas Américas e Caribes. Para quem estuda Aimé Césaire e Frantz Fanon chama a atenção a ideia de que a “Chiquita Bacana lá da Martinica”, imagem tropical, seria “existencialista, com toda razão”. Jean-Paul Sartre, filósofo existencialista, prefaciou livros de poetas africanos e a obra de Fanon.

Aimé Césaire e Frantz Fanon seriam existencialistas, lá da Martinica?

Jean-Paul Sartre escreveu o prefácio “Orfeu negro” para a Antologia de Poesia Negra que reuniu poetas africanos, malgaches e caribenhos, publicada em 1948. Sartre se impressiona com a radicalidade de Aimé Césaire que, no poema Cahier d’un Retour au Pays Natal (1939), diz ao mundo ocidental que não foram os negros que inventaram a pólvora, a bússola, o navio a vapor, a eletricidade e as armas de fogo; ele revira a história e aponta os brancos, com suas vitórias inglórias, como “vencedores oniscientes e ingênuos”. Aimé Césaire publicou Discurso sobre o colonialismo (1950) e não descuidava de retocar e refazer o livro-poema – cuja edição definitiva é de 1956 − que impressionou o existencialista (e vivente) Sartre.

Aimé Césaire e Frantz Fanon se cruzam o tempo todo nas obras e trajetórias. A história comparativa aqui ganha a dimensão das similitudes e associações. A epígrafe com que Fanon abre o seu Pele Negra, Máscaras Brancas (1952) foi retirada do livro de Césaire e evoca vozes silenciadas: “Falo de milhões de homens em quem deliberadamente inculcaram o medo, o complexo de inferioridade, o tremor, a prostração, o desespero e o servilismo”. O Discurso, a rigor, traduz para a linguagem científica, a negritude: Áfricas/Américas/Martinica. Césaire me toca mais antes da epígrafe de Fanon, quando ele começa a falar pelas vozes negras: “É a minha vez de enunciar uma equação: colonização = coisificação”. A equação vai sendo explicitada até se chegar à epígrafe de Fanon: “Eu, eu falo de sociedades esvaziadas de si próprias, de culturas espezinhadas, de instituições minadas, de terras confiscadas, de religiões assassinadas, de magnificências artísticas aniquiladas, de extraordinárias possibilidades suprimidas”.

Dizemos de um marxismo negro nas obras de Aimé Césaire, um marxismo existencialista e, talvez, surrealista, pois a razão não é tudo. No caso de Fanon, temos o marxismo freudiano: “A análise que empreendemos é psicológica. No entanto, permanece evidente que a verdadeira desalienação do negro implica uma súbita tomada de consciência das realidades econômicas e sociais. Só há complexo de inferioridade após um duplo processo: − inicialmente econômico; − em seguida pela interiorização, ou melhor, pela epidermização dessa inferioridade”.

Essa tese precisamos guardar: no capitalismo a economia política apoia-se na branquitude, vista como superior. Fanon traz Freud para a economia política, pois foi ele quem reagiu contra a “tendência constitucionalista da psicologia” e restituiu o indivíduo à história. Mas Fanon também traz coisas das revoluções do século XIX: “É pelo homem que a sociedade chega ao ser”. Fanon corteja os historiadores em Pele Negra, Máscaras Brancas: “A arquitetura do presente trabalho situa-se na temporalidade”. O “homem existente” é, para Fanon, sempre tempo. Fanon expõe a cultura histórica africana e diaspórica com suas urgências frente ao regime colonial e racista, “de modo algum pretendo preparar o mundo que me sucederá”, pois o “futuro não é cósmico, é do meu século, do meu país, da minha existência”.

Fanon adianta o debate e se debruça sobre o que podemos chamar de “amores raciais” a partir de romances autobiográficos. Primeiro ele analisa a “mulher de cor e o branco” e, depois, o “homem de cor e a branca”. Tentar interpretar Fanon para um leitor brasileiro cujo inconsciente – mestiço, negro ou branco − está sempre tentado a acreditar na mestiçagem não nos parece um desafio fácil. Encontro uma nota de rodapé muito expressiva para entender que Fanon compreende “amores raciais” na dimensão de crítica aos costumes patriarcais.  Para Fanon, o “branco, sendo senhor, ou simplesmente o macho, pode se dar ao luxo de dormir com muitas mulheres. Isso acontece em todos os países e mais ainda nas colônias”. Na dinâmica da ordem colonial o “luxo de dormir com muitas mulheres” nativas produz o “fato biológico” do legado mestiço. Essa herança mestiça, segundo Fanon, pode “circunstanciar o fato” e se autodeclarar, pela cegueira (alienação), branca. O contrário, a exceção que faz a regra existir, não deixa de também produzir o embranquecimento: “mas quando uma branca aceita um negro, esta situação adquire automaticamente um aspecto romântico. Há um dom e não um estupro”.

Fanon junta a regra patriarcal com a dimensão econômica do fato colonial, o colonizador, além de branco, é, na mesma pele e máscara, o capitalista: “Com efeito, nas colônias, sem que haja casamento ou coabitação entre brancos e negros, o número de mestiços é extraordinário. Isso porque os brancos dormem com suas empregadas negras”. Assim, a dialética do ser (branco) e do ter (mulheres nativas) permitiria confirmar “a certeza subjetiva de Hegel”, a liberdade como ilusão. Nas Antilhas/Américas o sonho feminino consistia em “branquear magicamente” ou casar com o “menos negro” no contexto da branquitude colonial. Na África ocupada, “amores raciais” não saltam facilmente das literaturas senão que brotam, sugere Fanon, de alguns “fenômenos nauseabundos”, asquerosos. O fato é que, nos dois lados do Atlântico, os “amores raciais” impregnavam no social o racismo que Fanon vai encontrar a partir de uma analogia com Marx, a “menos-valia psicológica”.

Fanon procede uma escrita − com parágrafos curtos, frases poderosas, palavras entoadas − à moda das declarações e manifestos dos processos revolucionários do século XIX. A epígrafe de Marx atua como profecia: “a revolução social não pode obter sua poesia do passado, mas apenas do futuro”. A perspectiva final é a “dimensão aberta da consciência”, é o ato de orar, no sentido de sambar, cantar, nas palavras de Fanon: “Ó meu corpo, faça sempre de mim um homem que interroga”. Podemos interpretar essas extraordinárias páginas a partir de quatro momentos fanonianos que se entrelaçam na narrativa: 1) a modernidade atlântica; 2) a historicidade racial; 3) a agência da negritude; e, 4) a temporalidade aberta. Como Fanon afirma que Pele Negra é um “estudo clínico”, impressiona nos seus argumentos a história atlântica e uma afirmação: “Não sou escravo da Escravidão”.

Aimé Césaire e Frantz Fanon. Afro-Caribenhos. Leia-os, encante-se!

*Autoria do artigo: Elio Flores (UFPB/NEABI)

Edição: Heloisa de Sousa